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A SEXUALIDADE E AS HISTÓRIAS PARA CRIANÇAS
07/01/2010

Profª/escritora M. Eunice ( Marô) G. Barbieri

Quando se quer falar sobre a relação entre sexualidade e literatura para jovens deve-se enfocar, primeiramente, a relação da criança com a ficção. Toda criança tem na imaginação e na fantasia um caminho para construir a realidade. É no faz-de-conta que ela estrutura o conhecimento que lhe chega do mundo. A imitação e a fabulação são, pois, elementos indispensáveis para o crescimento e para a maturação.

Quando Paulinho, um menino extremamente criativo, personagem de Fernanda Lopes de Almeida no livro “ As mentiras de Paulinho” diz que “ Lá no médico, conheci uma menina que está  crescendo dez centímetros por mês. Já não está cabendo no consultório. O médico teve de fazer o exame na calçada.” Ele nada mais está fazendo do que exercitar as suas relações de tamanho e proporção.

Quando, mais adiante, conta para a mãe que “ Hoje, na escola, só houve aula de matemática. Tiveram de chamar uma ambulância, porque um menino saiu vomitando números.” nada mais faz do que incorporar um dado perfeitamente pertinente – os números concretizados, do ponto de vista da fantasia – a uma atividade que ele possivelmente conhece – a ação de vomitar. E, muito provavelmente, a sua falta de gosto para a matemática...

Por isso mesmo é que, se eu disser a uma criança que acabo de ver um ratinho azul correndo, passando logo atrás da mesa, ela é bem capaz de procurá-lo antes mesmo de refletir sobre a veracidade da informação. Mais vale, para ela, o inusitado da situação e o interesse suscitado pelo bichinho do que a credibilidade dos dados que apresentei.

Como, também, por exemplo, teria credibilidade o conto“ Bondade de Hipopótamo, do livro “Histórias para acordar”, de Diléa Frate, que diz o seguinte:

Era uma vez um hipopótamo que era bom como um anjo. Ele ajudava as formiguinhas a atravessar o rio, transportava os peixes doentes com seu corpo-balsa, e ainda batia uns papos com o jacarés, que eram meio calados porque tinham um bafo de onça terrível. Apesar disso, nenhum bicho da floresta acreditava na bondade do hipopótamo: com aquele corpo, como seria possível? Mas chegou o dia em que os caçadores, sempre eles, apareceram para estragar a harmonia do hipopótamo, e sem mais nem menos...deram um tiro nele! O hipopótamo, horrorizado com aquele ato de violência gratuita, botou, pela primeira vez, as asas para fora e, suavemente, voou até uma árvore, depois até uma nuvem, e finalmente subiu ao céu como bom anjo que era. As formiguinhas choraram e os jacarés chafurdaram na lama. Foi um dia triste no pântano.

Nenhuma criança vai duvidar da existência do bom hipopótamo alado nem deixará de compreender, a seu modo, a dor da perda.

De modo que, pela fantasia a criança vai elaborando o entendimento do real.

Quando se pensa, no entanto, em sexualidade e literatura infantil é natural a inclinação que temos de pensar nos contos de fada. Primeiro porque, como diz Marie Louise Von Franz, em “A interpretação dos contos de fada”, da Editora Paulus, “ (...) A linguagem dos contos de fada parece ser a linguagem internacional de toda a espécie humana – de idades, raças e culturas.(...)”.

Os contos de fada são, de fato, extratos do folclore mundial, são espelho da natureza humana de qualquer latitude.

Selecionei quatro contos deste vasto e rico material para apresentar algumas situações onde as crianças se deparam com elementos relacionados ao sexo.

Podemos começar pela história da Chapeuzinho Vermelho, onde mais claramente aparece a proposição de sexualidade.

Esta personagem, protegida pela mãe e pela avó, mas de forma dúbia porque é lançada, sozinha, à caminhada no bosque até a casa da avó, depara-se com o desejo de aventurar-se no desconhecido, numa relação com um lobo cuja proposta inquietante é fazê-la deitar-se com ele na cama. Gustave Fauré, ilustrador da versão tradicional de Perrault, consegue mostrar de forma clara na gravura que ilustra essa parte do conto, um lobo encolhido e expectante e uma Chapeuzinho de olhar matreiro e cheio de promessas.

De modo geral, as crianças se amedrontam com a figura do lobo. E, o que é mais interessante, elas gostam desse medo. Como de resto, gostam de muitas outras histórias que arrepiam até qualquer adulto. Por quê ? Porque o medo dá prazer. E porque este medo “saudável”, no entanto, é resultado do enfrentamento que eles se propõem a fazer das situações de tensão. O mundo real é recheado de lobos à espreita... Espreita povoada de componentes sexuais. Quando este medo se torna incontrolável ou excessivamente forte, torna-se o indicador de conflitos. Na gíria, as expressões ser comido e comer referem-se a ter uma relação sexual. Ora, na história o lobo come a vovó e salta sobre a menina, para comê-la.

Numa ocasião, encontrei uma criança que recusou-se a voltar à escola, após uma sessão de contação de histórias que fizemos, com Chapeuzinho Vermelho. Ela dizia à sua mãe que o lobo a esperava, para atacá-la e comê-la. Descobrimos, investigando com a família, que havia de fato uma ameaça sobre ela, um lobo familiar que a assediava. Aproveitando a possibilidade que a fantasia lhe ofereceu, a criança acabou identificando o medo que a ameaçava na realidade

A maioria das crianças se identifica com a Chapeuzinho e aguarda ansiosamente a morte do lobo, pela mão dos vigilantes caçadores. Lidar com essa angústia que pode ser projetada e que tem prazo para acabar, acalma e faz bem. Aliás, é isso que a literatura faz. Nada do que se escreve – em literatura – é real. O texto literário é sempre uma invenção. Mas é através dele que recuperamos e reelaboramos a realidade.

Outra história interessante é a do “Barba Azul”, um rei que mata suas mulheres porque elas não sabem guardar segredo. A morte das sucessivas esposas sugere dificuldades de convivência harmoniosa entre as mulheres esposas e o rei, figura masculina cruel e despótica. De fato, a história está ligada à proibição da abertura de um cômodo (ou de um quarto) mas há versões em que esta pena de morte para a curiosidade implica também ação anterior de entrega sexual. Muitas pessoas reagem, com medo e fascínio, à essa possibilidade de relação sexo / punição. Para as crianças, especialmente, o sexo é uma fonte de indagações, porque assim como a sociedade civilizadora autoriza seu exercício, também condena e desqualifica muitas das manifestações de prazer.

Já em Branca de Neve, a situação confronta a identificação mãe e filha, com todas as suas variantes de beleza, juventude e de poder subjacente. O afastamento filha/mãe, proposto pela figura malévola da madrasta/bruxa, decorre da comparação e do ciúme. Esta bruxa que procura acabar com Branca, reaparecendo como tentação e perigo, reafirma a necessidade de identificação, bem como a dificuldade criada pelo medo da degradação gerada pelo envelhecimento. O mundo atual, inclusive, supervaloriza os valores estéticos e a manutenção da aparência como condição para as relações sociais e sexuais. Há crianças que desde cedo compreendem e vivenciam o valor exagerado da boa aparência e desenvolvem angústias na relação com a família e a sociedade.

Fui testemunha de situações em que – na escola - crianças extremamente bonitas, principalmente meninas, eram incentivadas a terem comportamentos sedutores como forma de alcançar pequenos objetivos do quotidiano: terem o primeiro lugar na fila, serem apresentadoras das atividades da sua turma, etc.

Branca de Neve, cujo pai nem aparece, cuja mãe cruel ao mesmo tempo que aponta o poder da beleza tenta de todos os modos impedir o florescimento da filha, reaparece nas lolitas de hoje. Meninas que competem com as mães quanto à aparência e quanto à sensualidade (que é uma competência para a sexualidade).  É bem comum encontrar-se sexualidade extrapolada na aparência das jovens do mundo contemporâneo.

A quarta história que apresenta componentes de sexualidade é Pele de Asno, na qual uma jovem princesa precisa esconder-se sob uma pele de um burro para fugir das investidas do rei, seu pai, que quer casar-se com ela. O tema do incesto também permeia algumas outras narrativas e permite que a criança elabore um pouco mais suas próprias relações edipianas, tal como a princesa que consegue livrar-se de todas as armadilhas armadas pelo pai.

Mas, e para encerrar, o que a literatura faz para as crianças, para os jovens e para qualquer de um de nós, é criar a possibilidade de recolocar as frustações, as angústias e as preocupações pessoais e sociais neste universo imenso da criação.

Nas histórias, tudo pode acontecer. Portanto, tudo o que não é verdade carrega consigo uma outra verdade que pode incomodar e doer mas que a gente reencontra, processa e resolve.

Por isso, se acreditarmos no poder da fantasia e se convivermos quotidianamente com a literatura, levaremos aos melhores limites nossa capacidade de viver, de viver bem e de ser feliz.

 

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